sábado, 27 de outubro de 2012

“Meu grito abafado vai viajar esses quilômetros e chegar até a tua casa. Ultrapassagem proibida, velocidade extrapolada. Vai passar ligeiro nos espaços entre os átomos. Se preciso, vai romper as ligações. Vai tentar abrir a porta e fracassará. Dane-se. Passará pela fresta. Sala vazia, cozinha solitária. Arromba a porta do banheiro e não te encontra. Meu grito vai adentrar teu quarto, rastejar pelo chão, subir pela cama. Meu grito vai traçar trajetórias no teu corpo inteiro, do pé ao pescoço. Mas quando meu grito chegar até teus ouvidos ele vai crescer, se expandir até os limites em que o espaço suportar, e dançar. Sim, dançar. Porque as palavras que vou expelir em gritos soarão pra ti algo como uma coreografia. A coreografia mais triste que já existiu nesse meio termo entre céu e inferno que a gente vive. Você vai chorar junto comigo as desgraças da vida e vai ser tão triste e atrevido o meu choro que sentirá como se mil navalhas te rasgassem. Nesse momento perceberás que meu corpo miúdo, estreito e quebradiço e minha alma fadigada precisam de cuidados. Desse modo, abrirá teus olhos não somente suspendendo tuas pálpebras, mas escancarando teu espírito, e notará o quanto também quer me cuidar. A partir de então, quando quiser tua atenção, só precisarei piscar. A partir de então, por teus cuidados, nunca mais precisarei gritar.” (E vê se não repara no punhado de inseguranças que eu carrego no bolso pra manter livres as mãos, Hortência Gonçalves)

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