quarta-feira, 8 de agosto de 2012


“A música ainda tocava ao longe… A agulha torta da vitrola arranhava os discos e chiava. Era um som bom. Pela primeira vez durante esse longo hiato, acordei e sabia aonde estivera. A água do chuveiro estava quente, mas no meio, bem no meio, havia um pingo maior e gelado que caia sob o alto da minha cabeça; eu não o via, mas o sentia. Estava no breu, com a porta fechada, as luzes apagadas, e a única luz que entrava era a que vinha da báscula do banheiro. A luz era fria, gelada… Batia no meu corpo e intoxicava as minhas veias. Doía. A sensação de casa vazia, os móveis já não estavam mais lá, a cama já não servia de abrigo; alguns copos quebrados perto da mesa, uma garrafa pela metade, umas folhas seguradas pelo esmalte que contornava a moldura da pintura abandonada. Ouvia-se apenas o som das gotas que voluptuosamente quebravam sob meus ombros pesados, escorriam sob minhas costas encurvadas e se misturavam com o que saia dos meus olhos. O velho som do silêncio inundava os poros com uma melodia suave e pesada. Talvez dissesse “ess muss sein!” e repetisse, repetisse, repetisse… As memórias, como um relógio parado, se estagnaram, e sem saber do dia, nem da hora, só estavam ali, congeladas e escancaradas para que tudo as vissem. O quarto iluminado, o cheiro do peixe assando no forno, as pontas de cigarro esquecidas sob o assoalho, os sapatos sujos de lama perto da porta, o porta-retrato perto da máquina de escrever, as folhas misturadas com cartões postais, a bicicleta estacionada perto da janela da cozinha, a varanda imunda com as folhas que caiam do velho ipê amarelo do jardim, o som da gargalhada se dobrando e se misturando no ar… Minhas mãos tremem.”

Eurico da Fonseca, “décimo pingo de chuva”

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